Bem que no tabuleiro da baiana poderia haver alguns grãos de café. A Bahia começa a entrar definitivamente na rota de grandes produtores e no radar de amantes da bebida, em grande parte pelo sucesso do fruto produzido em Piatã, na região da Chapada Diamantina. Por conta da altitude elevada, o café ganha algumas peculiaridades bastante interessantes, destacando-se quando comparado aos melhores grãos do eixo Minas Gerais – Espírito Santo. É lá, a 1268 metros acima do mar, que está localizada a Fazenda Vista Alegri – assim mesmo, com a letra i no fim, fruto de um equívoco no cartório local. O jovem Renato Rodrigues é quem toma conta da lavoura de quase três hectares. Da mesma forma que o nome da propriedade tem um diferencial, o café ali produzido também tem o seu, fruto da ousadia de Renato, que levou o seu café para feiras e competições e chamou a atenção de muitos entendidos do assunto.

 

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Por trás do grão

Por aqui todos concordamos que quando se conhece a história por trás do café que está sendo servido, a bebida ganha mais corpo, mais sabor, mais doçura. Não se trata de apurar o paladar, mas de estabelecer uma conexão com o produtor, sentindo que cada pequeno grão carrega uma trajetória que torna o momento de se apreciar um bom café único. A história de Renato é dessas que aguçam a curiosidade. Ele conta que iria seguir carreira como engenheiro, distante da lavoura. No entanto, precisou ajudar o pai por conta de um grave problema de saúde. Passou a estudar, pesquisar e correr atrás de informações sobre o plantio e o cultivo do café. Visitou propriedades vizinhas e, depois de muitas observações, experiências, erros e acertos, decidiu levar o seu grão para participar de feiras e exposições. Vendeu algumas sacas a preços bem baixos para comprar a passagem até Belo Horizonte para participar da Semana Internacional do Café, um dos maiores eventos do país.
 

“- Meu pai ficou uma fera comigo. Vendi as sacas a um preço bem abaixo do mercado em uma feira local, porque precisava de dinheiro para ir até Belo Horizonte. Ele disse que eu iria arruinar a lavoura e que assim o café não renderia nada.”

diverte-se Renato ao relembrar o episódio.

 

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Ó paí, ó!

Arrumado o dinheiro e arrumadas as malas, chegou na Semana Internacional do Café como um desconhecido, vindo de uma propriedade pequena para os padrões comerciais e com apenas dezenove anos de idade. Não se acanhou: separou algumas pequenas amostras do seu produto e foi distribuindo ao público. No fim das contas, foi chamado para participar de uma rodada de negócios junto aos maiores produtores e negociantes do país. No entanto, havia distribuído todo o seu café. Teve que ir atrás das pessoas e catar punhados de suas próprias amostras. Reuniu 120 gramas dos grãos verdes e percebeu que havia mais um problema. É que para participar da rodada, precisaria torrá-los. Correu até o estande de uma grande fabricante de máquinas de torra, que estava fazendo demonstrações do produto. Ali mesmo, ofereceu seus grãos e conseguiu torrá-los de forma bastante satisfatória. Resultado de toda essa ousadia: todos queriam saber quem era aquele jovem, de uma fazenda pequena, de uma região até então despercebida pelo grande público, mas que produzia um café maravilhoso. Pouco tempo depois, estava vendendo sacas a um preço bem acima do que jamais imaginou:
 

“- Meu pai chorou, minha mãe chorou e até eu chorei! Ficamos muito felizes. No começo, nem acreditávamos que iriam nos pagar aquela quantia toda pelas sacas. A primeira venda eu fiz pessoalmente: botei o café na caçamba do carro e fui até o sul do Brasil leva-las pessoalmente ao comprador.”

 

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O que a piatense tem?

Piatã possui um clima tropical de altitude. Nesses locais, que variam entre 1000 e 1500 metros acima do nível do mar, as temperaturas costumam ser mais frias. Com isso, os frutos de café demoram mais tempo a maturar, acumulando açúcares e minerais. Sendo assim, na xícara, a bebida tem uma potência de doçura realmente intensa, com uma acidez controlada e bastante corpo – ou seja, a boca inteira é tomada por um sabor persistente, agradável e delicado. A florada costuma acontecer entre setembro e outubro e a colheita vai até agosto. Por isso, o café fica mais tempo no pé. Renato tem a paciência e o carinho necessário para aguardar o momento certo de colher, garantindo assim um produto de excelência e aproveitando o que a localização privilegiada de Piatã pode proporcionar:

 

“- Estamos numa altitude que é limite para a geada. Aqui, o frio é seco, e não úmido. Para ter essas condições climáticas, uma propriedade cafeicultora na Colômbia, por exemplo, deveria estar a mais de 1700 metros de altitude.”

 

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Café com sotaque diferente

Aproveitem: o café de julho do Have a Coffee é cheio de histórias e sabores. Um catuaí vermelho produzido com todo carinho por Renato e sua família, vindo diretamente de terras baianas!
 
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E pensar que Renato por pouco não se tornou um engenheiro e seu pai, por menos ainda, não transformou a lavoura de café em pasto…
 

Quer receber esse e outros cafés incríveis em sua casa? 

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Eduardo Frota-perfil

Eduardo Frota é jornalista, barista e apaixonado por café


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